quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Como me perdoar da presunçosa idéia de que muitas vezes, foi para mim que ele escreveu?
"Hoje de manhã [...] quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada.
Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana.
É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir.
Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias.
O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre.
Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me.
O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta.
A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou.
Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. [...]
O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore."
(Jorge Luis Borges)
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